Cultura

Mangas
(Texto da escritora Lúcia Facco)

Para Valéria Melki Busin

" Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
"Dentro da noite veloz""
(Adriana Calcanhoto)

Sentiu a unha enroscar no fio de algodão da toalha que usava para enxugar o rosto. Os olhos fundos abandonaram a imagem que estava no espelho, a pele do rosto já ficando flácida e os dentes à mostra em algum movimento que podia ser um sorriso, mas não era. Apenas verificava se estavam bem escovados. Olhou o fio preso. O nervoso que sentiu a fez puxar o dedo rapidamente, o que agravou a situação e aumentou mais ainda o tamanho da ponta da unha lascada. Sem pensar, usou os incisivos para extirpar não apenas a lasca, mas a unha até o sabugo. Cuspiu o pedaço arrancado na pia e constatou como ficaria ridícula aquela mão com quatro unhas longas e uma no cotoco. Os incisivos entraram em ação novamente e, uma a uma, arrancaram as nove unhas que restavam.

Saiu do banheiro com um chumaço de algodão, em busca de acetona e lixa de unha para acabar de estragar o trabalho executado pela manicure no dia anterior. Era sempre assim. Nunca tinha calma para tentar resolver os problemas, por menores que fossem, depois se arrependia. Merda! Podia ter cortado a pontinha e lixado para acertar. Agora suas mãos estavam horríveis, assim como estava sozinha novamente, após ter descartado seu mais recente problema amoroso. Com pressa, sem paciência.

Pegou sobre a mesa do escritório o copo de whisky esquecido ontem, com o líquido branco levemente amarelado denunciando muito gelo no restinho de Chivas que espremera da garrafa e que afinal acabara nem bebendo. Ao lado deste havia outros dois copos cheios de guimbas de cigarro misturadas a líquidos que não identificou, nem se lembrou. Teve nojo do cheiro que impregnava os copos, as cortinas, as paredes, o micro sobre a mesa, vazio de idéias, sentiu o próprio corpo e a alma tomados por esse cheiro de fumo e álcool. Levou os copos e cinzeiros para a cozinha, jogou as guimbas fora e lavou tudo com muito detergente de limão. Esfregou com a esponja e depois ficou um longo tempo deixando a água forte e limpa escorrer sobre os copos e suas mãos de unhas curtíssimas e sem esmalte.

Enxugou as mãos no pano de prato que mandara Mercedes comprar, após muitas reclamações desta. "Os panos de prato estão todos rasgados!" Pela primeira vez ela reparou que havia uma frase bordada, que falava alguma coisa de Deus e sua ira eterna. Imaginou se havia uma repreensão velada por parte de Mercedes, ou se frase tão construtiva se devia apenas ao fato da moça que trabalhava para ela há três anos ter começado a freqüentar uma dessas igrejas evangélicas.

Ficou enxugando as mãos, olhando pela janela da cozinha, vendo a chuva fina cair sobre a copa enorme da mangueira do terreno da vizinha de baixo, verificando que as mangas estavam quase maduras. Logo começariam a cair no seu quintal e os cachorros iriam se refestelar. Talvez deixassem alguma para ela, desta vez. E, ao sentir a carne amarela e doce deslizar por sua garganta, teria mais uma vez a prova de que seu Deus definitivamente não era o Deus de ira de Mercedes, que prometia a danação eterna para aquelas que, como ela, se entregavam a relações sexuais tão inúteis e improdutivas com pessoas do mesmo sexo.

Voltou ao escritório, abriu as cortinas pesadas e as janelas. A lufada de vento frio e úmido, excepcional em pleno novembro carioca, a fez arrepiar-se, mas varreu para fora aquele cheiro de azedo e de defumador vagabundo. Ligou o micro, respirou fundo, sentindo o cheiro de chuva na terra. Começou, pela milésima vez, a escrever aquela história para crianças, mas parou no meio do segundo parágrafo. Não dava. Clara infiltrava-se no seu texto, com seu perfume, seu gosto, no meio das palavras inocentes, como uma mancha de vinho derramado, quando jogamos um guardanapo branco sobre ela. Aparece devagar, vai se esgueirando por entre as tramas do papel, até que o deixa todo vermelho sangue. Já fazia três meses.

Desistiu do texto infantil e levou muito pouco tempo para escrever um pequeno conto que falava sobre elas duas. Tão pequeno, quase um suspiro. O texto saiu fácil, em borbotões, como aquelas represas de desenho animado, quando surge um furinho que alguém tenta tapar com um dedo, mas a água acaba, invariavelmente, rompendo tudo e desce furiosamente. Ficou verborrágico, dramático como ela mesma. Exagerado em suas cores e dores. Sem final... Um suspiro breve, mas profundo. Sem pensar muito, enviou o texto para clara@algumacoisa.com. Send.

Desligou o micro, abriu todas as janelas da casa, acendeu um incenso e jogou, pela segunda vez naquela semana, o maço de cigarros pela metade na lata de lixo. Remexeu a geladeira e fez uma salada com todas as folhas que encontrou, tomate, milho, ovos de codorna. Sentiu a boca encher-se de água ao ver a salada pronta no seu prato. Colorida (verde, vermelha, roxa, amarela, branca), com molho de iogurte e ervas finas. Não comia nada há quase dois dias.
Acordou com a campainha e os cachorros latindo. No caminho até o portão ficou com a roupa cheia de marcas de patas sujas de lama. Abriu. Clara com um saco de mangas amarelas na mão.

Lúcia Facco

 

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Lúcia Facco é escritora, graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atualmente faz doutorado em Literatura Comparada nesta universidade. Publicou em 2006 o livro de contos "Lado B: histórias de mulheres" (editora Summus) e em 2004 o livro "As heroínas saem do armário: literatura lésbica contemporânea"(editora GLS). Recebeu o prêmio Alejandro Cabassa - melhor livro de contos - para o livro de contos "Todos os sentidos: contos eróticos por mulheres", do qual o conto Diário é integrante e o prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos - Categoria Cultura-Literatura, pelo livro "As heroínas saem do armário: literatura lésbica contemporânea".



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