Sentiu a unha enroscar no fio de algodão
da toalha que usava para enxugar o rosto. Os olhos fundos
abandonaram a imagem que estava no espelho, a pele do
rosto já ficando flácida e os dentes à
mostra em algum movimento que podia ser um sorriso,
mas não era. Apenas verificava se estavam bem
escovados. Olhou o fio preso. O nervoso que sentiu a
fez puxar o dedo rapidamente, o que agravou a situação
e aumentou mais ainda o tamanho da ponta da unha lascada.
Sem pensar, usou os incisivos para extirpar não
apenas a lasca, mas a unha até o sabugo. Cuspiu
o pedaço arrancado na pia e constatou como ficaria
ridícula aquela mão com quatro unhas longas
e uma no cotoco. Os incisivos entraram em ação
novamente e, uma a uma, arrancaram as nove unhas que
restavam.
Saiu do banheiro com um chumaço de algodão,
em busca de acetona e lixa de unha para acabar de estragar
o trabalho executado pela manicure no dia anterior.
Era sempre assim. Nunca tinha calma para tentar resolver
os problemas, por menores que fossem, depois se arrependia.
Merda! Podia ter cortado a pontinha e lixado para acertar.
Agora suas mãos estavam horríveis, assim
como estava sozinha novamente, após ter descartado
seu mais recente problema amoroso. Com pressa, sem paciência.
Pegou sobre a mesa do escritório o copo de whisky
esquecido ontem, com o líquido branco levemente
amarelado denunciando muito gelo no restinho de Chivas
que espremera da garrafa e que afinal acabara nem bebendo.
Ao lado deste havia outros dois copos cheios de guimbas
de cigarro misturadas a líquidos que não
identificou, nem se lembrou. Teve nojo do cheiro que
impregnava os copos, as cortinas, as paredes, o micro
sobre a mesa, vazio de idéias, sentiu o próprio
corpo e a alma tomados por esse cheiro de fumo e álcool.
Levou os copos e cinzeiros para a cozinha, jogou as
guimbas fora e lavou tudo com muito detergente de limão.
Esfregou com a esponja e depois ficou um longo tempo
deixando a água forte e limpa escorrer sobre
os copos e suas mãos de unhas curtíssimas
e sem esmalte.
Enxugou as mãos no pano de prato que mandara
Mercedes comprar, após muitas reclamações
desta. "Os panos de prato estão todos rasgados!"
Pela primeira vez ela reparou que havia uma frase bordada,
que falava alguma coisa de Deus e sua ira eterna. Imaginou
se havia uma repreensão velada por parte de Mercedes,
ou se frase tão construtiva se devia apenas ao
fato da moça que trabalhava para ela há
três anos ter começado a freqüentar
uma dessas igrejas evangélicas.
Ficou enxugando as mãos, olhando pela janela
da cozinha, vendo a chuva fina cair sobre a copa enorme
da mangueira do terreno da vizinha de baixo, verificando
que as mangas estavam quase maduras. Logo começariam
a cair no seu quintal e os cachorros iriam se refestelar.
Talvez deixassem alguma para ela, desta vez. E, ao sentir
a carne amarela e doce deslizar por sua garganta, teria
mais uma vez a prova de que seu Deus definitivamente
não era o Deus de ira de Mercedes, que prometia
a danação eterna para aquelas que, como
ela, se entregavam a relações sexuais
tão inúteis e improdutivas com pessoas
do mesmo sexo.
Voltou ao escritório, abriu as cortinas pesadas
e as janelas. A lufada de vento frio e úmido,
excepcional em pleno novembro carioca, a fez arrepiar-se,
mas varreu para fora aquele cheiro de azedo e de defumador
vagabundo. Ligou o micro, respirou fundo, sentindo o
cheiro de chuva na terra. Começou, pela milésima
vez, a escrever aquela história para crianças,
mas parou no meio do segundo parágrafo. Não
dava. Clara infiltrava-se no seu texto, com seu perfume,
seu gosto, no meio das palavras inocentes, como uma
mancha de vinho derramado, quando jogamos um guardanapo
branco sobre ela. Aparece devagar, vai se esgueirando
por entre as tramas do papel, até que o deixa
todo vermelho sangue. Já fazia três meses.
Desistiu do texto infantil e levou muito pouco tempo
para escrever um pequeno conto que falava sobre elas
duas. Tão pequeno, quase um suspiro. O texto
saiu fácil, em borbotões, como aquelas
represas de desenho animado, quando surge um furinho
que alguém tenta tapar com um dedo, mas a água
acaba, invariavelmente, rompendo tudo e desce furiosamente.
Ficou verborrágico, dramático como ela
mesma. Exagerado em suas cores e dores. Sem final...
Um suspiro breve, mas profundo. Sem pensar muito, enviou
o texto para clara@algumacoisa.com. Send.
Desligou o micro, abriu todas as janelas da casa, acendeu
um incenso e jogou, pela segunda vez naquela semana,
o maço de cigarros pela metade na lata de lixo.
Remexeu a geladeira e fez uma salada com todas as folhas
que encontrou, tomate, milho, ovos de codorna. Sentiu
a boca encher-se de água ao ver a salada pronta
no seu prato. Colorida (verde, vermelha, roxa, amarela,
branca), com molho de iogurte e ervas finas. Não
comia nada há quase dois dias.
Acordou com a campainha e os cachorros latindo. No caminho
até o portão ficou com a roupa cheia de
marcas de patas sujas de lama. Abriu. Clara com um saco
de mangas amarelas na mão.
Lúcia Facco
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Lúcia Facco
é escritora, graduada em Letras pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e atualmente faz
doutorado em Literatura Comparada nesta universidade.
Publicou em 2006 o livro de contos "Lado B: histórias
de mulheres" (editora Summus) e em 2004 o
livro "As heroínas saem do armário:
literatura lésbica contemporânea"(editora
GLS). Recebeu o prêmio Alejandro Cabassa -
melhor livro de contos - para o livro de contos "Todos
os sentidos: contos eróticos por mulheres",
do qual o conto Diário é integrante e
o prêmio Arco-Íris de Direitos Humanos
- Categoria Cultura-Literatura, pelo livro "As
heroínas saem do armário: literatura lésbica
contemporânea".